A maioria das mulheres da nossa comunidade vive ainda refreada pela sua condição de mulher. Sob uma tristeza eterna ressoam sons nostálgicos e proféticos do fado da sua existência. A nossa sociedade é arbitrária, e até bárbara, para com as mães, filhas, mulheres e amantes. Estigmatizado pelos castradores dogmas moralistas, este ser admirável parece condenado a penitenciar por um pecado protótipo de uma Eva que nunca pecou, enquanto Adão sempre permaneceu impune. A mulher pode ter inúmeras imperfeições, contudo, no que respeita a “pecados” permanece bem aquém do homem.Apesar do mundo ter evoluído, e muito, nos últimos anos, a mulher continua constrangida a viver uma volúpia abstrusa na desonra do medo e da ignorância de uma sociedade hipócrita e enfraquecia por estereótipos antiquados.
São imensas as mulheres que têm horror e pudor do seu corpo, tratando-o como um empecilho, quando o deveriam tratar como uma obra de arte que a natureza teve a habilidade e a amabilidade de esculpir.
Já alguma vez se questionaram porque motivo algumas mulheres, especialmente após desposarem, se vestem tão desastradamente, tão melancolicamente e sem fineza, como se fossem avós? Será por causa do imortal fantasma chamado “medo” ou será por terem receio daquilo que todos os outros pensam e dizem, ou será ainda por medo delas próprias.
A mulher não é venturosa porque não a deixam ser emancipada. Vive subjugada a prejuízos obstinadamente reincidentes, mesmo na classe mais jovem da população. Se seduz é uma desavergonhada; se ousa é uma descarada; se não é casada ou é um perigo ou é lésbica (expressão, em moda, usada para caracterizar todas as mulheres que, de algum modo, se distinguem em alguma actividade social ou económica); se triunfa na vida é porque teve relações sexuais com alguém importante; se é bonita é tratada como um artefacto de museu; se vai a um bar é assediada com piropos de rapazes imberbes; se vai a uma discoteca é aliciada com propostas obscenas de labregos que exuberam na nossa comunidade.
Em verdade vos digo que a mulher tem um sorriso harmonioso e amoroso, porém, reprimi-o prodigiosamente com o receio que este seja decifrado como símbolo de uma postura imprópria, sendo forçada a sobrecarregar um árduo fardo de incumbências e imposições que lhe martirizam a modesta vida. Enquanto jovem, é a parentela que lhe delimita a diversão. “O namoro deve ser um relacionamento circunspecto”, de preferência já a pensar no matrimónio.
E será o matrimónio a cúpula da autonomia há tanto desejada?
Puro delírio. Velozmente a mulher apercebe-se que a liberdade não passa de uma infrutífera miragem. Depois da aperreação da família passa para alvo de opressão por parte do cônjuge e, mais tarde, dos filhos, dos pais, dos sogros e o que mais houver. Do estatuto delicioso de amante ela passa, rapidamente, àquela que parece ser a sua situação genuína, “mãe” e “dona-de-casa”, mesmo apesar de laborar fora de portas como o homem. Nesta circunstância, ela vê-se remetida para uma subsistência assexuada, longe de ser uma autêntica mulher, já que uma “dona-de-casa” não tem tempo para o romance, pois o seu dia-a-dia é atestado com a polvorosa da casa, das compras e dos descendentes.
A mulher não tem espaço para ser mulher.
Caríssimas e estimadas Senhoras que tempo nos resta para pensarmos em nós, para sentirmos e partilharmos o amor que encerramos no nosso coração?
Por vezes não passamos de um corpo fatigado pelas tarefas domésticas e que carrega um espírito habitado por enigmas e tarefas triviais, sem fantasia e sem alma, mas com muita abnegação e muita benevolência.
As mulheres da nossa povoação e do nosso concelho podem não ser tão graciosas e ostentosas como as outras, todavia, são das mulheres mais compassivas, enamoradas e afectuosas que subsistem no nosso globo terrestre. De outra forma como podiam elas aguentar uma entidade tão cruel?
Na sua simplicidade e ternura, a mulher abriga uma descomunal sapiência que não figura em nenhum livro ou arquivo, mas que se sente no calor da sua presença. De uma forma comedida ela exibe o seu amor por tudo o que lhe é querido, enquanto fica à espera. À espera que um dia lhe deixem ser o que sempre sonhou: Mulher.
E que assim seja!


























