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22 February, 2010

Doce Certeza


Por essa vida fora hás-de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d´ouro fulgindo em muita boca!


Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos d´ouro e risos de mulher,
Muito beijo d´amor apaixonado;
E não te lembrarás de mim sequer...


Hás de tecer uns sonhos delicados...
Hão de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!...


Mas nunca encontrarás p´la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d´amor que são meus versos!...



Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

31 March, 2009

Fico na Ilha!

Foto: Sandra Amaral (Direitos Reservados)


Estou na ilha ciosa de espaço para correr e de mar para navegar...
Estou na ilha, acorrentada ao silêncio deste verde incómodo, à espera do azul de um outro olhar.
Fico na ilha, na demarcação absurda do medo e da saudade de Velhos do Restelo e de Adamastores.
Fico na ilha, porque resistir também é ficar.
Fico na ilha. À espera do barco da carreira que me leve de volta a um outro lugar.
Fico na ilha, para saber se é ficando, que se aprende a cá estar.
Fico na ilha. Hei-de apanhar um dia a baleeira em que saltaste para além do mar.
(Sou como tu, avô, uma gaivota sempre a voar.)
Fico na ilha onde fechaste os olhos na paz do teu lar.
Fico na ilha para morrer, como tu, na serenidade que tiveste ao partir para nunca mais voltar.
Fico na ilha para devolver o meu corpo à terra ou ao mar!

03 March, 2009

As sem-razões do Amor


Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabe sê-lo.
Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque te amo
bastante ou demais a mim.

Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

(Autor: Carlos Drummond de Andrade)

Bem-me-quer, Mal-me-quer


Hoje não houve prosa, nem versos, nem poesia,
Passou-se mais um dia como um outro qualquer.
Ouviu-se só canto da chuva que na noite fria,
Dizia-me, zombando, bem-me-quer, mal-me-quer.

Hoje nada pra brindar, nem que fosse à fantasia,
Já que tudo, uma vez mais, pareceu tão silente.
Não houveram olhares, sorrisos, nem a simpatia,
Nem os beijos que outrora haviam entre a gente.

Hoje foi mais um dia como outro dia qualquer,
Que não me inspirou versos, nem de nostalgia.
Ouvia-se apenas os, bem-me-quer, mal-me-quer,
Na voz tristonha da chuva, que na noite caía.

(Luiz Antonio Schimanski)

09 December, 2008

Pico

Foto: Sandra Amaral (Direitos Reservados)

Sei agora outros ventos outro mar

a teoria das brumas e o teorema

daquela ilha sempre por achar.

Seu nome é Pico. E fica no poema.

(Manuel Alegre, In. Pico)

Poemas

Foto: Sandra Amaral (Direitos Reservados)

Os Velhos Baleeiros

Eu vi os barcos parados prisioneiros
na sede de um museu. E os arpões
pendurados. E gravadas
em dentes de baleia as passadas navegações
dos velhos baleeiros.

E vi os olhos daquele que falava
da última baleia como quem
remasse ainda sobre a onda brava
para um mar onde nunca mais ninguém.

(Manuel Alegre, In. Pico)

26 November, 2008

Orquídeas


Exótica e esplendorosa,

a orquídea é flor bizarra

que nos deixa intimidados.

Porque é que a mãe natureza

pôs nela tantos cuidados?
É linda como as mais lindas

mas não é nada modesta:

sabe ser a preferida

para uma noite de festa?

Mas as outras flores singelas,

sendo acaso menos belas,

não precisam ter ciúme.

Que afinal a natureza,

se às orquídeas deu beleza,

retirou-lhes o perfume.

(Rosa Lobato Faria)

Charneca em flor


Enche o meu peito, num encanto mago,

O frémito das coisas dolorosas...

Sob as urzes queimadas nascem rosas...

Nos meus olhos as lágrimas apago...


Anseio! Asas abertas! O que trago

Em mim? Eu oiço bocas silenciosas

Murmurar-me as palavras misteriosas

Que perturbam meu ser como um afago!


E, nesta febre ansiosa que me invade,

Dispo a minha mortalha, o meu bruel,

E já não sou, Amor, Soror Saudade...


Olhos a arder em êxtases de amor,

Boca a saber a sol, a fruto, a mel:

Sou a charneca rude a abrir em flor!


(Florbela Espanca)

24 November, 2008

A Concha


A minha casa é concha. Como os bichos

Segreguei-a de mim com paciência:

Fechada de marés, a sonhos e a lixos,

O horto e os muros só areia e ausência.


Minha casa sou eu e os meus caprichos.

O orgulho carregado de inocência

Se às vezes dá uma varanda, vence-a

O sal que os santos esboroou nos nichos.


E telhadosa de vidro, e escadarias

Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!

Lareira aberta pelo vento, as salas frias.


A minha casa... Mas é outra a história:

Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,

Sentado numa pedra de memória.


(Vitorino Nemésio)

23 October, 2008

Amor e Amizade


"Perguntei a um sábio,

a diferença que havia

entre amor e amizade,

ele me disse essa verdade...

O Amor é mais sensível,

a Amizade mais segura.

O Amor nos dá asas,

a Amizade o chão.

No Amor há mais carinho,

na Amizade compreensão.

O Amor é plantado

e com carinho cultivado,

a Amizade vem faceira,

e com troca de alegria e tristeza,

torna-se uma grande e querida

companheira. Mas quando o Amor é sincero

ele vem com um grande amigo,

e quando a Amizade é concreta,

ela é cheia de amor e carinho.

Quando se tem um amigo

ou uma grande paixão,

ambos sentimentos coexistem

dentro do seu coração."



William Shakespeare

22 September, 2008

Liberdade


Não temas velha princesa

Em perder tua guarida,

Pois nunca te repudiará a realeza

A que foste vendida.


Não te preocupes com a fraternidade

Nem com o falso ou verdadeiro.

Quem manda é o dinheiro

Que vende e compra a verdade.


Mas deixa que te diga Liberdade,

Doce e carcomida princesa,

Que perdeste toda a beleza


E até a utópica igualdade.

Podes até ter uma nobre natureza,

Mas nunca serás uma realidade.


24 July, 2008

A um Poeta


Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afuguentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

(Antero de Quental)

Aspiração


Meus dias vão correndo vagarosos,
Sem prazer e sem dor parece
Que o foco interior já desfalece
E vacila com raios duvidosos.

É bela a vida e os anos são formosos,
E nunca ao peito amante o amor falece...
Mas, se a beleza aqui nos aparece,
Logo outra lembra de mais puros gozos.

Minha alma, ó Deus! a outros céus aspira:
Se um momento a prendeu mortal beleza,
É pela eterna pátria que suspira...

Porém, do pressentir dá-ma a certeza,
Dá-ma! e sereno, embora a dor me fira,
Eu sempre bendirei esta tristeza!

(Antero de Quental)

13 June, 2008

A uma Amiga


Aqueles, que eu amei, não sei que vento
Os dispersou no mundo, que os não vejo...
Estendo os braços e nas trevas beijo
Visões que à noite evoca o sentimento...

Outros me causam mais cruel tormento
Que a saudade dos mortos... que eu invejo...
Passam por mim, mas como que têm pejo
Da minha soledade e abatimento!

Daquela Primavera venturosa
Não resta uma flor só, uma só rosa...
Tudo o vento varreu, queimou o gelo!

Tu só foste fiel - tu, como dantes,
Inda volves teus olhos radiantes...
Para ver o meu mal... e escarnecê-lo!

Antero de Quental, In. Sonetos Completos

05 June, 2008

BRUMA DA SAUDADE


A montanha do Pico

Viu-te nascer

E nas ondas do mar

Foste embalada.


Cagarras gritavam

Ao anoitecer.

Envolta em bruma,

A Ilha encantada.


Largos horizontes,

Imensidão de mar,

Agora a saudade

Faz-te voltar.


Marés te levaram,

Marés te trouxeram,

Amor que no cais

Lágrima chorou...


Raios de luz

Por ti lá esperam.

Vindo da terra

O vento soprou.


Nuvens do céu

Lágrimas verteram

E das pedras negras

Para o mar correram.


(Jose M. Raposo)

13 March, 2008

Teus Beijos


“Que segredos tem teus beijos?

Que te mantém a meu lado

Junto, bem junto, colado....

Mesmo distante de mim....


E assim,

Num frenesi envolvente

Intenso, húmido, quente

Me torna total dependente...


Teus beijos...

Me extasiam em repletos desejos...

Desvende pra mim teus segredos

Pois falo sério! Preciso muito saber....

É um beijo que não se esquece

E até parece

Que teu gosto está aqui...

Selando teus lábios em mim...


Beijo que me queima, que arde

Minh’alma invade

Acalma e inflama, feito uma chama

Tatua, perpetua e me ama...


Beijos...

Da tua boca eu preciso

Doce poção de absinto

Venha ou me traga o antídoto

Para que eu possa viver...”


(Rose Felliciano)

27 February, 2008

Ilha


Em pleno mar espelhado
Embalada por ventos suaves
Uma ilha recorta no espelho salgado
A silhueta do canto de aves,

As nuvens da sua humidade vital,
Que regam os verdes em branco de marfim,
Contemplam-lhe os cabelos sem fim
Ao voar na suave brisa matinal,

Como é perfeita...
Esta paz embrenhada na beleza...
Bebo mais um gole desse sonho lavado em céu azul,
E navego num mar de peixes que eu não sei,
Tamanho paraíso só pode ser no sul
Da alegre alma que não encontrei.

26 February, 2008

Nostalgia


Nesse País de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que plas aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi...
Mostrem-se esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta!

Ó meu País de sonho e de ansiedade,
Não sei se esta quimera que me assombra,
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim...Ah!
Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

(Florbela Espanca)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

(Luís de Camões)