09 May, 2007

Quem disse que a vida era fácil faltou à verdade!

Sentada numa tábua que alguma embarcação deixou à deriva, coloco as minhas mãos debaixo do queixo, e concentrada observo ao redor. Enfrente, contemplo o interminável mar azul, bonançoso e cristalino. E as suas ondas, num vai e vem constante, banham delicadamente os meus pés.
Avisto, ao longe, a nossa ilustre e majestosa montanha que as nuvens encobrem, de vez em quando, tornando-a mais harmoniosa. As gaivotas também comparecem, com os seus voos rasantes, ornamentando, ainda mais, este panorama paisagístico.
Aos poucos os meus pensamentos começam a amontoar dentro da minha cabeça, como se dentro dela, num segundo, uma desmesurada tempestade se tivesse formado. Uma tempestade de ideias, de reflexões, de opiniões, de circunstâncias e, sobretudo, de verdades.
Hoje penso nas facilidades que algumas criaturas têm ao longo da sua vida.
Em verdade vos digo que, para todos nós, seria muito mais fácil ficarmos sentados à espera que as coisas acontecessem, e que tudo o que mais ambicionamos caísse do céu. Seria muito mais fácil culpar Deus, ou outro sujeito qualquer, exclusivamente porque a nossa vida não é como, outrora, idealizámos. Seria muito mais fácil se tivéssemos um amor-perfeito, uma amiga sempre presente, uma família indulgente.
Todavia, quem disse que a vida era fácil faltou à verdade, pois é difícil é levantarmo-nos da cadeira, ou da cama, e correr atrás daquilo que é importante para nós. É difícil aceitar que todas as pessoas têm defeitos, que o amor é construído aos poucos. É difícil compreender que para amar alguém como pessoa, temos obrigatoriamente que começar por lhe conceder emancipação e identidade próprias como pessoa. Temos que amá-lo e respeitá-lo por tudo aquilo que ele é em si mesmo, e não por aquilo que ele é, ou representa, para nós. Temos que amá-lo para o seu próprio bem, e não pelo bem que dele extraímos. Contudo, isso é irrealizável se não formos capazes de um amor que nos "transforma", por assim dizer, no outro, tornando-nos capazes de ver as coisas como ele as vê, de amar o que ele ama, de apreciar as mais profundas certezas da sua vida como se fossem nossas. Todavia, sem sacrifício, tal transformação não é de todo possível. Entretanto, se não formos capazes desse género de transmutação "no outro" enquanto continuamos a ser nós mesmos, lamentavelmente, não estamos ainda habilitados para uma vida inteiramente condescendente. É difícil descobrir que os melhores amigos não nascem da noite para o dia. É difícil assimilar que a família é o bem mais valioso que se tem na vida.
Hoje eu descobri que devemos gostar, e quiçá amar, cada pessoa de uma forma distinta, que novas pessoas aparecem, que por novas pessoas nos apaixonamos, que com novas pessoas rimos e brincamos, que por novas pessoas sofremos e choramos.
Hoje eu sei que antes de gostar ou amar outra pessoa, tenho que primeiramente que gostar de mim.
Caríssimos irmãos, às vezes tenho todos os motivos, e mais alguns, do mundo para estar triste, mas sinto-me alegre. Sou solitária, mas sinto-me sempre acompanhada. Sou, inúmeras vezes, condenada, mas sinto-me absolvida. Tenho, muitas vezes, a alma banhada com lágrimas de dor, mas na face um sorriso. Quando tudo dá errado, creio que Deus nunca fechou uma porta que não abrisse, em seguida, uma janela. Quando deparo com a mentira, acredito que a verdade erguer-se-á. Tenho fé em algo que não vejo, mas sei que existe. Prefiro perder o que os outros se empenham tanto para ganhar. Faço questão de ser a menor, enquanto todos querem ser os maiores. Sou a última, e sinto-me a primeira. Tenho coragem para lutar, quando o que existe ao meu redor me dá medo. Vejo o sol, quando o céu está repleto de nuvens. Tenho esperança na vida, mesmo após a morte.
E nesta calma o silêncio toma conta do lugar no qual me encontro a meditar. E chego à conclusão que a humildade que acomete o meu ser é ignorada por quase todos, pois vivo num local de fanfarrões, que tripudiam sobre o que já usufruíram e só valorizam o próximo, quando têm um interesse próprio. Porém, tenho a convicção que um dia esses seres vão compreender que esta vida é dois dias, e que todos nós somos imortalizados pelo bem que fazemos, e nunca pelo mal.

E que assim seja!

1 comment:

Ca. said...

"A única amizade que vale é a que nasceu sem razão"
ADORO-TE
Beijos