07 February, 2006

Actos sem Omissões


Hoje, ortografo esta epístola num socalco cravado numa pastagem, velada por um cento de Pinheiros entortados, admirando ao longe o povoado do Campo Raso.
E, recordo a minha meninice, naturalmente que a minha escassa lembrança se deve a que esse período não foi peculiarmente venturoso, mas pressuponho que sucede o mesmo com o emancipado trecho dos mortais.
Creio que a infância feliz é uma alegoria; para o depreender basta desferir um olhar às narrativas infantis, nas quais o lobo mau come a avozinha, e prontamente vem o caçador que abre o ventre do coitado bicho e tira a velha viva e inteira, volta a abarrotar a barriga deste com pedras e em seguida sutura a epiderme com cordel e agulha, provocando tal secura ao lobo que desata a correr para ir tragar água no rio, onde tomba e submerge com o fardo das pedras.
Porque é que o caçador não o eliminou de forma incomplexa e clemente?
Certamente porque nada é elementar e compassivo na infância.
No meu caso, a infelicidade natural da infância era agravada por uma quantidade de complexos tão emaranhados que já nem sequer consigo enumerá-los, mas que felizmente não deixaram feridas que o tempo não curasse.
Há meses, não sei exprimir quando, porque são imensos os livros que ultimamente tenho lido, li um belo e sublime livro de uma brilhante e notável escritora Chilena, em que ela dizia que, desde criança, se tinha sentido uma estranha na sua família e no seu sítio, e que a sua escrituração era, talvez, um ensaio para entender as conjunturas inerentes e aclarar o tumulto da existência, desassossegos que não martirizam as criaturas vulgares, somente os inconformistas enraizados, muitos depois acabam transmutados em carismáticos escritores.
Em verdade vos digo que esta magnífica teoria me tirou um peso de cima: não sou um monstro, afinal há outros como eu.
Considero que a estirpe do meu enigma é permanentemente a mesma: inépcia em aceitar o que aos outros parece genuíno e usual, e conjuntamente uma propensão fascinante para proferir conceitos que, absolutamente, ninguém almeja escutar, o que repele e afugenta alguns latentes aliados.
Contudo, devo proclamar que felizes de todos aqueles que tem a invulgar bravura de exprimir por palavras, pensamentos, actos e omissões o que lhes suporta a alma e o coração.
E que assim seja!
"O conhecimento próprio leva-nos como que pela mão à humildade."
(Josemaría Escrivá)

1 comment:

rua do boavista said...

kerida futura "senhora dra." tás a tirar o curso certo. os teus textos são um espectáculo e a tua escrita é melhor ainda.
parabens