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26 February, 2008

Amor é fogo que arde sem se ver


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

(Luís de Camões)

09 January, 2008

Renascer

Foto: Sandra Lopes Amaral


Vejo-me sentado,
Naquela rocha;
Lá no alto,
Do penhasco.

Ali sentado
Qual vigia,
Vislumbro o mar,
Até onde se mistura,
No ar,
Com o céu.

Aqui no alto,
Sinto ânsias de voar.
Como gaivotas, que vejo
Preguiçosamente no ar.

Planam,
Fitam,
Em voos apaixonados,
Como um par de namorados.

Voam, em voos picados
Por cima, das cristas das ondas,
Em mergulhos desejados.
E eu aqui, sentado.

No alto,
De uma praia deserta,
Observo,
O sol lá longe, que desperta.

O cinzento que inundava
A tela do poeta,
Dá lugar ás cores
E amores.
Na escrita do pintor.

E todas as dores
De perdidos amores
Renascem como flores.

(Augusto Gil)

Gaivota

Foto: Sandra Lopes Amaral


Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.


Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.


Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.


Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.


Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.


Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.


(Alexandre O'Neill)

07 January, 2008

Deus quis...

Foto: Sandra Lopes Amaral


Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.


(Fernando Pessoa)

Ó Mar Salgado...

Fotos: Sandra Lopes Amaral

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

(Fernando Pessoa)

17 December, 2007

As Palavras


Palavras tantas vezes perseguidas
palavras tantas vezes violadas
que não sabem cantar ajoelhadas
que não se rendem mesmo se feridas.

Palavras tantas vezes proibidas
e no entanto as únicas espadas
que ferem sempre mesmo quebradas
vencedoras ainda que vencidas.

Palavras por quem eu já fui cativo
na língua de Camões vos querem escravas
palavras com que canto e onde estou vivo.

Mas se tudo nos levam isto nos resta:
estamos de pé dentro de vós palavras.
Nem outra glória há maior do que esta.


(Manuel Alegre)

29 November, 2007

Assim mesmo


Muitas vezes as pessoas são

egocêntricas, ilógicas e insensatas.

Perdoa-as assim mesmo.


Se és gentil, as pessoas podem

te dizer que és egoísta e interesseira.

Sê gentil assim mesmo.


Se és uma vencedora, terás

alguns falsos amigos e alguns

inimigos verdadeiros.

Vence assim mesmo.


Se és honesta e franca,

as pessoas podem te enganar.

Sê honesta e franca assim mesmo.


O que construís-te durante anos e anos,

alguém pode destruir de uma hora para outra.

Constrói assim mesmo.


Se estás em paz e és feliz,

as pessoas podem sentir inveja.

Sê feliz assim mesmo.


O bem que fazes hoje pode

ser esquecido amanhã.

Faz o bem assim mesmo.


Dá ao mundo o melhor de ti,

mas isso pode nunca ser o bastante.

Dá o melhor de ti assim mesmo.


Porque, no final das contas,

é entre ti e Deus.

Nunca foi entre ti e as outras pessoas.


(Madre Teresa de Calcutá)

Aqui está...


"Aqui está a minha vida - esta areia tão clara

com desenhos de andar dedicados ao vento.

Aqui está a minha voz - esta concha vazia,

sombra de som curtindo o seu próprio lamento.

Aqui está a minha dor - este coral quebrado,

sobrevivendo ao seu patético momento.

Aqui está a minha herança - este mar solitário,

que de um lado era amor e, do outro, esquecimento."


(Cecilia Meireles)

07 November, 2007

A concha


A minha casa é concha. Como os bichos

Segreguei-a de mim com paciência:

Fechada de marés, a sonhos e a lixos,

O horto e os muros só areia e ausência.


Minha casa sou eu e os meus caprichos.

O orgulho carregado de inocência

Se às vezes dá uma varanda, vence-a

O sal que os santos esboroou nos nichos.


E telhadosa de vidro, e escadarias

Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!

Lareira aberta pelo vento, as salas frias.


A minha casa... Mas é outra a história:

Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,

Sentado numa pedra de memória.


(Vitorino Nemésio)

06 November, 2007

Mãe infusa


Ainda estão por dizer
as púdicas confidências
do tempo em que era possível
ouvir as hortênsias.

No quintal de incontinente
o maracujá enlanguescia
e pedra a pedra se reconstruía
a casa infinitamente.

Teu rosto ainda não vagueava
na noite fria do retrato.
Em que desmemoriada candeia
derramaste oh mãe o azeite intacto?

Dispunhas as jóias do inverno
para a festa cálida do verão.
Por certo alguma levaste
passando-a ao fisco da morte
para que uma pérola te assinalasse
no caso que o vento espalhasse
o pólen da tua mão.

Eis-te todavia sem ossos
mas mais do que nunca infusa
em teu ovular desvelo
e eu carnalmente intrusa
pressinto que para tocar-te
enfermo de longos cabelos.

(Natália Correia)

05 November, 2007

Queixa das almas jovens censuradas


Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.


(Natália Correia)

O Palácio da Ventura


Sonho que sou um cavaleiro andante.

Por desertos, por sóis, por noite escura,

Paladino do amor, busca anelante

O palácio encantado da Ventura!


Mas já desmaio, exausto e vacilante,

Quebrada a espada já, rota a armadura...

E eis que súbito o avisto, fulgurante

Na sua pompa e aérea formusura!


Com grandes golpes bato à porta e brado:

Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...

Abri-vos, portas d'ouro, ante meus ais!


Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...

Mas dentro encontro só, cheio de dor,

Silêncio e escuridão -- e nada mais!


(Antero de Quental)

26 October, 2007

Não ter Tempo


"Deus pede estrita conta do meu tempo,
e eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta.
Mas, como dar, sem tempo, tanta conta,
eu, que gastei, sem conta, tanto tempo?
Para dar minha conta, falta o tempo,
o tempo me foi dado, e não fiz conta.
Não quis, sobrando tempo, fazer conta,
hoje, quero acertar conta, e não há tempo.
Oh, vós que tendes tempo, sem ter conta!
Não gastei vosso tempo em passatempo,
cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta.
Pois, aqueles que, sem conta, gastam tempo,
quando o tempo chegar, de prestar conta,
chorarão, como eu, o não ter tempo."

(Frei António das Chagas, Meados do século XVII)

16 October, 2007

Confia en mi amor


Duda la luz de los astros,

De ése el sol tiene calor,

Incluso duda la verdad,

Pero confía en mi amor.


William Shakespeare

E Por Vezes


E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

(David Mourão-Ferreira)

Lágrima


Cheia de penas
Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito
O jeito de te querer tanto

Desespero
Tenho por meu desespero
Dentro de mim
Dentro de mim um castigo
Não te quero
Eu digo que não te quero
E de noite
De noite sonho contigo

Se considero
Que um dia hei-de morrer
No desespero
Que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile
Estendo o meu xaile no chão
Estendo o meu xaile
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havias de chorar
Uma Lágrima
Por uma lágrima tua
Que alegria
Me deixaria matar.

(Amália Rodrigues)

28 September, 2007

EU...


Eu sou a que no mundo anda perdida,

Eu sou a que na vida não tem norte,

Sou a irmã do Sonho, e desta sorte

Sou a crucificada... a dolorida...


Sombra de névoa ténue e esvaecida,

E que o destino amargo, triste e forte,

Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida!...


Sou aquela que passa e ninguém vê...

Sou a que chamam triste sem o ser...

Sou a que chora sem saber porquê...


Sou talvez a visão que Alguém sonhou,

Alguém que veio ao mundo p'ra me ver,

E que nunca na vida me encontrou!


Florbela Espanca, In. Livro de Mágoas

01 September, 2007

Árvore, cujo pomo, belo e brando


"Árvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;

nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruito debuxando.

Que pois me emprestas doce e idóneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,
se não te celebrar como mereces,
cantando-te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória."

(Luís Vaz de Camões)

A vida perfeita

"Não é crescendo à toa,
Como as árvores, que alguém se aperfeiçoa;
Não como o roble, em pé trezentos anos,
E ser madeiro enfim, calvo, seco sem ramos.
Esse lírio de um dia,
Em Maio, tem mais valia,
Mesmo que à noite caia já sem cor:
Foi a planta da luz, era o sol a flor.

Em justas proporções a beleza se ajeita,
E só num ritmo breve é que a vida é perfeita."

(Ben Jonson)

14 June, 2007

Regresso


"E contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.

Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e já em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.

De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar."

(Manuel Alegre)